Visibilidade invisível
A câmara dos deputados de São Paulo aprovou ontem o Dia do Orgulho Hétero. De um lado, a propícia aprovação da união estável entre homossexuais, do outro, esse retrocesso de ontem. Parece que a cada dado passo pra frente, acontece um inevitável recuo. A conclusão lógica que tiro disso é a sociedade continua onde sempre esteve – estagnada.
A justificativa do autor do projeto, o vereador Carlos Apolinário é não conceder a comunidade gay “excessos e privilégios”. Os homossexuais nunca pediram regalias ou vantagens. A exigência deles é extremamente viável e justa – direitos iguais. E vale lembrar: essa posição vergonhosa de superioridade sempre foi exercida pelos defensores da moral e dos bons costumes, dos religiosos alienados, dos protetores da família tradicional, dos homofóbicos incorrigíveis.
O vereador também disse que “faz um apelo pelo respeito à figura humana dos gays”. O discurso típico dos falsos respeitadores. Dizem aceitar, mas ficam incomodados ao verem casais homossexuais dando um beijo. Insistem em dizer que cada um tem direito de fazer o que bem entender, mas expulsam o filho de casa quando descobrem que ele está apaixonado por outro cara. As pessoas dizem respeitar somente porque acreditam que é uma realidade remota, que nunca vai invadir sua vivência. Quando o gay se aproxima, é uma afronta, uma baixaria, uma pouca vergonha. Então vem toda intolerância disfarçada de liberdade de expressão.
Se Carlos Apolinário realmente quisesse que os gays fossem respeitados, ele não criaria um dia para vangloriar a orientação sexual da maioria heterossexual que já tem todos os direitos concebidos pela lei e a aprovação da sociedade. O hétero não sofre preconceito um dia sequer no ano, enquanto o homossexual, bom, nem preciso dizer. Não existe razão para criar um dia oficial em que os grupos dominantes são exaltados. É como instituir um dia para a “Supremacia branca” ou “Orgulho rico”. Essas classes já são – infelizmente – detentoras de todas as regalias possíveis.
A igualdade entre héteros e homossexuais nunca foi tão próxima e tão distante ao mesmo tempo.